O mestre estava sentado à sombra de uma figueira, consertando uma rede de pesca, quando o discípulo chegou com as sandálias molhadas até o tornozelo.
“Mestre, vim pela trilha de baixo, perto do rio. Nunca vi aquelas águas assim. Estão subindo além das margens, invadindo os campos vizinhos, arrastando terra, derrubando cercas que os camponeses levaram meses para erguer. E o pior: não é um rio pequeno. É o mesmo rio que sempre nos deu água boa, peixe farto, irrigação certa. Agora ele está destruindo o que antes sustentava.”
O mestre não interrompeu o trabalho com a rede. “Choveu muito nas montanhas essa semana?”
“Sim. Dizem que uma tempestade forte caiu lá em cima, por vários dias seguidos.”
“E o rio decidiu se comportar assim, ou apenas recebeu mais água do que o seu leito normal consegue carregar?”
O discípulo parou. “Acho que… foi a quantidade de água. O rio não decidiu nada.”
“A água que está destruindo as cercas”, continuou o mestre, agora olhando para o horizonte, “é diferente da água que sempre deu vida aos campos? Tem outra cor? Outro cheiro? É veneno, ou é a mesma água de sempre, só que descontrolada?”
“É a mesma água”, respondeu o discípulo, mais devagar. “Só que… sem controle.”
O mestre finalmente largou a rede no colo. “E o rio vai continuar assim para sempre? Ou uma tempestade, por mais forte que seja, tem um fim?”
O discípulo pensou um pouco antes de responder. “As tempestades sempre passam. Meu avô dizia que depois de uma cheia grande, o rio sempre volta para o leito. Leva dias, às vezes semanas. Mas volta.”
“Então me diga”, perguntou o mestre, “o que você viu de fato hoje — um rio que se tornou ruim, ou um rio bom carregando, por um tempo, mais do que consegue conter?”
O discípulo não respondeu de imediato. Olhou para as próprias mãos, ainda úmidas da caminhada.
“Há uma diferença”, disse o mestre, “entre um rio seco, que não tem mais o que oferecer, e um rio cheio demais, que ainda tem força — só que a força está saindo pelo lugar errado.” Ele se levantou, devagar, e caminhou até a beira do caminho, olhando na direção onde ficava o vale. “Um rio seco precisa ser lamentado. Um rio transbordando precisa ser guiado. São coisas muito diferentes, mas de longe, para quem só vê a destruição, parecem a mesma coisa.”
“Mas mestre”, disse o discípulo, “enquanto ele não volta para o leito, os campos continuam sendo destruídos. As cercas continuam caindo. Isso é um problema urgente, mesmo que o rio volte depois.”
“Sim, é urgente mesmo!”, concordou o mestre. “E é por isso que ninguém espera parado a tempestade passar sem fazer nada. Os camponeses mais sábios não gritam com o rio, nem tentam convencê-lo a parar de correr. Eles fazem outra coisa enquanto a água ainda está alta.”
“O quê?”
“Eles reforçam os pontos onde a margem é mais fraca. Eles avisam os vizinhos para tirarem o que pode ser levado. Outros resolvem sair da região prevendo que a natureza mudou e o rio pode se transbordar outras vezes, trazendo caos para suas propriedades, seus lares e seus negócios. Eles não deixam de agir só porque a força da água não é culpa ou responsabilidade deles. E, ao mesmo tempo, alguns não se desesperam, porque sabem que aquele rio, quando a chuva parar lá em cima, vai lembrar sozinho onde é o seu leito. Ele sempre soube. Só estava carregando mais do que cabia.”
O discípulo ficou olhando para o caminho molhado sob seus pés, sem dizer nada por um bom tempo.
“Uma coisa mais me intriga”, disse ele por fim. “Vi também, hoje, um trecho onde a correnteza formou um redemoinho, virando sobre si mesma, sem sair do lugar. A água ali parecia mais violenta do que em qualquer outro ponto, batendo nas pedras sem parar. Por que isso acontece?”
O mestre olhou para ele com atenção, como quem escuta mais do que a pergunta em si. “Onde há um obstáculo que a água ainda não decidiu como contornar, ela gasta a força girando no mesmo lugar, em vez de seguir seu curso. É o ponto mais barulhento do rio — mas raramente é o ponto mais forte, é apenas um ponto onde sua força fica momentaneamente mais concentrada.”
“E o que se faz com um redemoinho?”
“Nada, à força. Quem entra ali para brigar com a água sai mais machucado do que entrou. Mas o leito, um pouco mais adiante, continua aberto, esperando. A correnteza, cedo ou tarde, encontra a saída — sozinha, ou ajudada por quem souber, com calma, abrir um caminho ao lado, sem entrar na briga.” O discípulo respirou fundo, como se algo em seu peito também tivesse encontrado, por um instante, uma passagem mais larga. Ficaram os dois em silêncio, olhando o vale distante, onde uma fina coluna de vapor subia do rio ainda agitado sob o sol da tarde. Na manhã seguinte, o discípulo voltou à trilha de baixo — não com pressa, nem com a testa franzida de antes. Levava consigo uma pá e algumas estacas de madeira. Parou exatamente onde a margem estava mais fraca e, sem dizer a ninguém o que estava fazendo nem por quê, começou, sozinho, a reforçar o barranco.
