Era fim de tarde quando o lenhador parou para afiar o machado.
Sentou na soleira da própria casa, passou a pedra pelo fio da lâmina com a calma de quem faz isso há décadas. O som era ritmado. Quase reconfortante.
Foi então que o cabo rachou.
Não quebrou inteiro — apenas uma fenda fina, quase invisível, que correu pela madeira do punho até a base. Ele ficou olhando para aquilo por um tempo que não soube medir.
Precisaria de um novo cabo.
Levantou, entrou no mato próximo à casa e procurou uma árvore boa. Não demorou. Escolheu, cortou o galho, começou a moldar com o facão.
Estava quase terminando quando parou.
A lasca de madeira que segurava na mão direita era da mesma espécie que ele havia derrubado pela manhã.
Não qualquer espécie. Aquela espécie. A que levava trinta anos para crescer.
Isso já aconteceu antes, pensou.
E era verdade. Sempre havia sido assim. Cabo velho quebra, vai à floresta, pega madeira nova, faz outro cabo, volta ao trabalho. O ciclo tinha uma lógica tão simples que nunca havia pedido exame.
Mas algo naquela tarde não deixou a lógica passar em silêncio.
De onde vem o cabo?
Da floresta.
E para que serve o cabo?
Para segurar o machado.
E para que serve o machado?
Para cortar a floresta.
Ele ficou parado com a lasca na mão.
Não era uma descoberta. Era apenas uma sequência de perguntas tão simples que nunca haviam chegado juntas na mesma frase.
O vento passou entre as árvores que ainda estavam de pé. Um pássaro saiu de um galho sem fazer barulho.
Então a floresta me dá o instrumento que uso para destruí-la, pensou. E eu nunca perguntei se ela concordava.
Não era uma questão de lei. Nem de regra.
Era algo menor — e por isso, maior.
Era a imagem de alguém que pede ajuda ao vizinho, usa essa ajuda para prejudicá-lo, e depois volta pedir ajuda de novo. Sem perceber. Ou percebendo, mas chamando isso de necessidade.
Quantas vezes fiz isso, ele pensou, sem saber que estava fazendo?
A pergunta não tinha endereço certo. Não era só sobre a floresta.
Terminou o cabo.
O trabalho precisava ser feito — isso era real. Mas terminou diferente de como havia começado. Com uma lentidão que não era cansaço.
Encaixou a lâmina no cabo novo, bateu uma vez para firmar, e ficou olhando para o machado pronto na própria mão.
Uma ferramenta feita de floresta.
Para ser usada na floresta.
Por alguém que vivia do que a floresta oferecia.
Na manhã seguinte saiu mais tarde que o costume.
E voltou com menos toras do que poderia ter trazido.
Não disse nada a ninguém sobre o motivo. Nem a si mesmo.
Apenas deixou algumas árvores de pé que antes não teria deixado.
