Era um trem antigo. Desses que você ouve antes de ver — o apito cortando o ar, a fumaça subindo devagar antes mesmo de a máquina aparecer na curva.
O viajante entrou apressado. Jogou a mala no bagageiro, sentou junto à janela e ficou olhando para o relógio mais vezes do que o trem movia as rodas.
Queria chegar. Só isso.
Em algum momento — não se sabe bem quando — a paisagem começou a mudar. De um lado da janela, havia algo que parecia… transbordante. Cores que o olho não nomeava direito. Formas que sugeriam mais do que mostravam. Uma leveza que não pedia explicação.
Do outro lado — seco. Rachado. O tipo de lugar que parece ter esquecido o que é ter água.
O viajante virou o rosto para aquele lado e ficou.
Estava olhando para a aspereza. Para o que faltava. Para o que incomodava.
Foi então que a voz veio devagar, como quem não tem pressa de chegar a lugar nenhum.
“Vai para o mesmo destino que eu, acredito.”
O viajante assentiu sem tirar os olhos da janela árida.
“E está gostando da viagem?”
“Não vejo hora de terminar”, respondeu ele.
O outro ficou quieto por um momento. “Você olhou para este lado aqui?”, disse, inclinando levemente a cabeça para a janela oposta.
O viajante olhou. Algo naquilo o segurou por mais tempo do que esperava.
“É o mesmo trem”, disse o desconhecido. “A mesma velocidade. A mesma hora. Só a janela é diferente.”
O viajante não respondeu.
“Posso te perguntar uma coisa?” O desconhecido esperou. “Quando você chegar — o que vai lembrar dessa viagem?”
O viajante abriu a boca. Fechou.
“E o que você quer lembrar?”
Silêncio.
O trem seguiu. A fumaça subia lá fora em espirais que se desfaziam antes de se tornarem qualquer coisa definida.
Em algum momento — de novo, não se sabe bem quando — o viajante mudou de lado.
Não de assento. Só o rosto. A direção do olhar.
E ficou assim o restante da viagem: sem relógio, sem pressa, olhando para aquilo que tinha cores sem nome e formas que sugeriam mais do que mostravam.
O desconhecido sorriu, mas não disse nada.
Não precisava.
